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A vida além da arte: no Brasil, Flávio, na França, Capitulino

  • Foto do escritor: EDUARDA APARECIDA SILVA PAZ
    EDUARDA APARECIDA SILVA PAZ
  • 25 de fev.
  • 7 min de leitura

Artista plástico, restaurador, viajante e pai. Conheça a trajetória e paixão de Flávio Capitulino pela arte e pela vida.


Flávio Capitulino. Foto: Nathalya Araújo
Flávio Capitulino. Foto: Nathalya Araújo

Auto denominado “Cidadão do Mundo”, aos 17 anos de idade e com apenas 80 dólares no bolso, Flávio Capitulino deixava suas raízes paraibanas para conquistar seus sonhos na Europa. Amante da arte, encontrou na vida a oportunidade de trabalhar com a restauração, natural de Souza e campinense de coração, o artista plástico conquistou uma carreira no exterior a partir do conserto de uma mesa de laca chinesa que ficava na casa dos seus, na época, patrões.


Na França, onde tudo teve início, Flávio passou de cuidador de crianças a um artista plástico conceituado, se tornando em pouco tempo chefe do ateliê de museus nacionais do país. 

Capitulino se aperfeiçoou na arte da restauração, sendo convidado a trabalhar em coleções de obras de artistas como Pablo Picasso e Pierre-Auguste Renoir. Sua trajetória é marcada por conquistas que honram a sua origem, viajou o mundo inteiro e atualmente trabalha na França, mas sua casa é na cidade onde cresceu, Campina Grande, Paraíba, Brasil. 


Foto: Jhian Félix
Foto: Jhian Félix

Quem é Flávio Capitulino, o restaurador? Você consideraria um dom o que você tem? Por exemplo, você disse que não tinha nenhum diploma para apresentar, mas você sabia algo, você sabia como fazer, então você explorou. Como é que surgiu?


Eu sempre digo que o Capitulino fica na França e quem vem pro Brasil é o Flávio. Na época o Capitulino restaurador não tinha diploma ou técnica, com pouco conhecimento da pintura, pouco saber sobre o que era uma cultura, eu fui me encontrando, eu quis reconstituir o que estava vendo. Muitas pessoas dizem “Flávio, você é um autodidata”, mas não sou um autodidata, eu já fui, fui aquela pessoa que não conhece e faz. A partir do momento que você vê alguém fazendo e que vai se apropriando de técnicas, você deixa de ser autodidata. No momento que eu tive um mestre, que eu vi o que eles faziam neste ateliê, fui aprendendo, mas quis ir além, quis buscar sempre infinitas maneiras de chegar ao resultado de um bom trabalho.


 O mundo das artes é uma estrada muito árdua, é muito difícil ser reconhecido. Aquele artista que vive e come da sua arte já é um grande sucesso. Minha maior motivação para continuar no mundo das artes seria a minha perseverança, eu sou muito insistente e acredito em mim. Eu nunca desisti dos meus sonhos, sempre acreditei neles, e pensar que eu posso deixar um patrimônio mundial para a nova geração também seria uma motivação muito honrosa para mim. 


O que é arte para você? Toda obra de arte carrega consigo memória e significado, como você se sente ao receber tamanha responsabilidade para trazer de volta a essência dessas obras através da restauração?


Essa é uma grande pergunta, e que já foi e é tema de vários debates: o que é arte? Tem uma definição que diz: “Arte é tudo aquilo que se pode colocar em um muro ou pedestal”, mas para mim a arte é a ideia! Quando você compra uma obra de arte, você não está comprando só a obra em si, o físico, você está comprando primeiro a ideia do artista. Porém uma obra de arte não somente carrega a sua ideia ou história, mas também o afeto, e é a partir disso que surge a minha responsabilidade enquanto artista, a partir do momento que uma obra de arte passa pela porta do meu ateliê, ela perde a sua identidade, a sua caricatura. Posso citar obras de Picasso, Chagall, Matisse e Renoir que a partir do momento que elas estão comigo, eu não quero saber de quem é, o que me interessa é a doença.


Eu me considero um médico da arte, então me pergunto, “por que ela está ali?”, e para mim não existe nem SUS (Sistema Único de Saúde) e nem particular, o que importa para mim realmente é a doença. Depois disso é que eu posso apreciar,  eu vou olhar e penso “é uma obra de Renoir,  Picasso ou de Chagall”

Foto: Íris Barros
Foto: Íris Barros

Como é que funciona essa questão do seu trabalho no ateliê? Você precisa de um local mais silencioso e no qual você se concentre ali, realmente, na obra?


Depende, eu sou uma pessoa muito solitária, então quando estou na frente de um quadro penso primeiramente no respeito, você tem que ter muito respeito por aquela obra de arte, eu tento não escutar músicas, mas quando escuto prefiro as mais tranquilas, mas no geral não escuto nada e fico só conversando comigo mesmo, somos somente eu e a obra ali. 


Falando das suas técnicas de restauração, sobre os métodos que você utiliza, você falou das mil maneiras que se tem de chegar a um só resultado, consideraria esse o diferencial do seu trabalho?


Sim! Acho que, como falei para você, quando um quadro chega eu não quero saber de quem é, a primeira pergunta que faço é, inclusive, uma pergunta que me faço todos os dias quando acordo, vejo com quais quadros vou trabalhar e me pergunto “Flávio, se esses quadros fossem seus, você entregaria ao restaurador Capitulino?” Se a resposta é sim, eu me levanto e dou o meu melhor, mas se um dia a resposta for não, eu paro de restaurar!  O diferencial das minhas técnicas eu diria que primeiramente é o diagnóstico, questiono o porquê daquele quadro estar comigo, por que ele veio para mim. Quando eu der o diagnóstico preciso vou, finalmente, restaurar. E falando das minhas técnicas, não é porque eu aprendi na escola que você tem que usar um solvente ou adesivo específico que será regra, cada quadro possui necessidades diferentes e eu tenho que saber como trabalhar em cada um deles, o diferencial é esse. É aí onde surgem as novas técnicas, por exemplo, eu não posso utilizar as mesmas técnicas que aplico em uma tela de linha em uma tela de algodão, eu vou adaptando, e tudo isso começa no diagnóstico, no observar daquela obra de arte que chega até mim.  



Flávio, abordando sobre os seus trabalhos, projetos e seu reconhecimento, qual foi o seu sentimento ao perceber que estava sendo convidado a resgatar a memória, a essência e a vida de grandes obras de arte?


Eu cresci querendo ser médico, médico! E hoje me considero um médico da arte, sempre com a preocupação de ser pouco intervencionista, eu não ultrapasso os limites do que se deve fazer. Eu nunca fui mercenário e acredito que estou blindado em relação a isso, me importo em resgatar as obras de arte que chegam até mim, independente de quem as pintou, muitas vezes nós focamos no superficial e esquecemos da essência, me sinto bem em falar que consegui salvar mais uma obra. Eu nunca fui e não pretendo ser uma pessoa orgulhosa, a humildade é a chave para que eu consiga realizar o meu trabalho.


Sobre oportunidades, na Europa você tem o seu espaço, como é o mercado da restauração aqui no Brasil? 


É impressionante como eu não tenho espaço aqui no Brasil,  porque o que aconteceu comigo foi do dia para a noite, na França eu tinha minha fama e meu sucesso e concedi várias entrevistas, aqui no Brasil na época, de repente eu percebi que não podia mais andar na rua, passaram a me reconhecer apenas como uma celebridade, “Flávio, o restaurador” e muitos esqueceram da minha trajetória, então quando as oportunidades no país apareceram eu comecei a recusar (isso há mais de 40 anos atrás). Eu não queria estar batendo de porta em porta para mostrar o meu trabalho. Hoje quando venho ao Brasil sou Flávio, apenas Flávio… Na França sou Capitulino, o restaurador. 



Íris Barros e Flávio Capitulino. Foto: Nathalya Araújo.
Íris Barros e Flávio Capitulino. Foto: Nathalya Araújo.

Natural de Souza, campinense de coração e com anos vivendo em diversos países. Apesar de todas as suas viagens, onde você considera que é o seu porto seguro? Um lugar no qual sempre quer voltar? Como lida com a saudade durante suas viagens?


Eu nasci em Souza e cheguei em Campina Grande com três anos de idade, hoje tenho o título de cidadão campinense. Gosto de dizer que realmente sou um cidadão do mundo, mas como muitas pessoas dizem, nosso porto seguro sempre estará nos braços das pessoas que amamos, e a pessoa que eu amo está aqui em Campina Grande, é aqui onde estão as minhas raízes. 

O artista pode brilhar no mundo inteiro, mas se ele não brilhar dentro da própria casa, perto de quem ele ama, não valerá de nada todo o esforço. Hoje está mais fácil, né? A gente só pega o celular e está vendo a outra pessoa por uma tela, isso ameniza a saudade, mas nada como estar perto realmente da pessoa. Eu adotei dois filhos aqui no Brasil, e nunca quis mexer nas minhas raízes, os criei e eduquei aqui no país. Eu saí do Brasil sabendo aonde queria ir e sempre sabendo para onde queria retornar, eu sou daqui, eu vivo e respiro as minhas origens, os elos que fortaleci e continuo fortalecendo.

Saber de onde você veio é muito importante, pois a partir disso você não sabe somente aonde quer chegar, mas também para onde quer voltar!

Foto: Íris Barros.
Foto: Íris Barros.

Para além de restaurador, quem é Flávio Capitulino?


Flavio Capitulino… Para mim a ficha ainda não caiu, gosto de pensar que hoje em dia é muito fácil ganhar todo esse reconhecimento, mas na minha visão ter sucesso de verdade é você amar e ser amado. Eu não vou jamais perder a minha simplicidade e humildade, posso chegar em qualquer lugar do mundo e irei conversar com qualquer pessoa olhando nos olhos, pois esse sou quem eu sou! Você vai conhecer o Capitulino se estivermos falando sobre trabalho e arte, mas enquanto estou aqui sou apenas Flávio, podemos conversar sobre diversos assuntos e eu não irei nunca mudar a minha maneira de expressar tudo o que sou.



Esse também é o Flávio Capitulino, é o que não esperou a oportunidade chegar até ele, ele foi lá e fez as suas próprias oportunidades.

Foto: Jhian Félix
Foto: Jhian Félix
Expediente

Fotografia e reportagem: Íris Barros, Jhian Félix e Nathalya Araújo

Redação: Eduarda Paz, íris Barros, Jhian Félix e Nathalya Araújo

Supervisão editorial: Ada Guedes e Rostand Melo


 
 
 

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